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Bem Vindo

terça-feira, 14 de março de 2017

Footing
- O footing era uma das principais atividades de lazer em Florianópolis nas décadas de 1940 a 1960.

A Praça XV de Novembro já foi o centro da vida social da Capital, lugar onde as pessoas trocavam olhares, se conheciam e flertavam.

Por ROBERTA ÁVILA
Casa da Memória

Entre as décadas de 1940 e 60, o Footing era uma atividade social de Florianópolis. Na Praça XV de Novembro, as moças colocavam seu vestido bonito e ficavam caminhando, enquanto os homens, parados, olhavam.

Dar uma caminhada em Florianópolis hoje é sinônimo dos calçadões da Beira-Mar Norte e Continental. Dar uma voltinha é coisa para se fazer no shopping center, no centrinho da Lagoa ou na praia. 

Mas o centro da vida social de Florianópolis já foi a Praça XV de Novembro, onde muita gente ia passear no fim de tarde, acompanhar a saída das moças dos colégios ou das missas, ou só aproveitar o movimento para trocar olhares, quem sabe um sorriso.

Era o chamado Footing, o hábito se popularizou nas cidades brasileiras nas primeiras duas décadas do século XX e marcou a memória dos moradores da Grande Florianópolis entre os anos 1940 e 60.
Era a época da Confeitaria Chiquinho, Livraria Xavier, do Bar Rosa e do Bar Miramar. 

Era uma época bem diferente para as mulheres. Ser secretária era moderno e sonho de muita jovem. 
Jornais como “O Estado” e “A Gazeta” publicavam anúncios pedindo mais e mais bordadeiras para a Fábrica Kotzias, as colunas sociais falavam de bailes de debutantes e casamentos e noticiavam o surgimento do terninho para moças, opção apenas para viagens e eventos esportivos, claro.

“Nessa época, o Footing era um dos passatempos na cidade, assim como a sessão das moças, que oferecia desconto no preço e sempre lotava no Cine Ritz. O rádio também era uma fonte de entretenimento”, conta Ricardo Medeiros, jornalista e autor do livro “No Tempo da Sessão das Moças”, sobre o lazer em Florianópolis na década de 60.

Atividade Classista
O passeio em volta da Praça XV e da Rua Felipe Schmidt era uma atividade prazerosa para o fim de tarde, principalmente aos finais de semana. Momento de conhecer e se fazer conhecido, e até, quem sabe, de arranjar um namorado.

“As mocinhas colocavam seu vestido mais bonito, classe A, e ficavam andando para lá e para cá enquanto os rapazes ficavam na calçada olhando”, conta Eglê Malheiros, escritora de 83 anos, que não gostava de frequentar o footing porque o considerava muito classista.

“O pessoal da alta sociedade ficava separado e com o tempo as pessoas queriam ir para o local da alta sociedade, que daí mudava de lugar. Então o Footing era um jogo social muito forte, envolvia uma crueldade que ninguém considerava na época e muita gente não frequentava. Eu mesma não tinha paciência para ficar ali de conversinha, vendo que mocinha que estava com o vestido repetido da semana passada ou quem fez ou quê, mas muitos namoros começavam ali”, relembra Dona Eglê, que conheceu o escritor Salim Miguel, com quem é casada até hoje, nas atividades do partido comunista em Florianópolis, em 1945.

Apesar da divisão social, muita gente fez do Footing um hobby. Saturnina Angélica dos Santos, conhecida como Dona Nem, hoje com 79 anos, se lembra de participar do footing nas décadas de 40 e 50 e acredita que todo mundo sabia da divisão da praça.

“A gente ia para a missa e depois ia passear. Ficávamos andando em pares, sempre com uma amiga. O lado da figueira era dos negros e o lado do Palácio Cruz e Souza era dos brancos. Eu que era mais morena, ficava para o lado de lá. Todo mundo sabia que era assim”, acredita.

Engenheiro aposentado e artista plástico, Átila Ramos, 69, lembra que havia uma divisão econômica também.

“O Footing tinha duas camadas: o dos ricos, na praça 15, perto do Palácio, e num trecho da Felipe Schmidt; e o dos pobres, dentro da praça e no lado de baixo da figueira, que aí era dos marinheiros, empregadas domésticas”, explica.

Em frente ao Palácio

Átila Ramos afirma ter passado sua juventude sentado em frente ao Palácio Cruz e Sousa para ver as meninas que saíam dos colégios e das missas passarem na praça 15. Rolava aquela paquerinha quando as moças passavam para lá e para cá, davam uma voltinha e passavam de novo.

“Tudo girava em torno da praça 15. Não tinha shopping, nem cinema em outros lugares, a gente ficava ali até 8, 10 horas da noite”, conta o artista plástico. Na memória de Átila também ficaram gravadas as domingueiras do Clube dos Democratas, com orquestra tocando, e muita festinha americana: os rapazes levavam bebida, as moças salgadinhos, ligavam uma radiola e passavam um domingo juntos.

“Não tinha TV em Florianópolis, ninguém tinha carro, era tudo a pé e de ônibus”, relembra.
A namoradinha de Átila na época era Iara Pedrosa. Ele a seguia pelas ruas do centro quando ela passava com as amigas do colégio.

“Eu ia atrás, ficava olhando, puxava conversa... Era muito ingênuo, muito romântico, quase uma brincadeira. Foi uma época muito boa: surgiram os Beatles, a bossa nova, Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, houve uma efervescência musical muito grande”, acredita.

Passaram-se 40 anos e há quatro ou cinco anos ele e Iara se reencontraram, retomaram o contato e continuam amigos.

Para ele, o Footing terminou depois da construção do Shopping Beiramar e do fechamento dos cinemas de rua.

“Esse romantismo acabou. Não apenas por causa dos lugares, mas também por causa da criminalidade mesmo. Eu já fui assaltado saindo de um café aqui no centro de noite, indo para minha casa na General Bittencourt. Ficou impossível passear de noite no centro. Dá até medo. Não tem uma atração, não tem nada, só tem gente te pedindo dinheiro, cigarro, aí se você não dá xingam, agridem”, relata.

Mesmo com a divisão social do Footing, dona Nem guarda boas lembranças daqueles anos. Foi na praça que conheceu seu grande amor, que depois a abandonou, mas que deixou uma filha.

 Do lado de lá da Figueira

Dona Nem participava do footing na década de 50. Como morava no continente, vinha para o centro da cidade para ir à missa na Catedral Metropolitana de Florianópolis.

“Depois ia todo mundo no Miramar tomar café para depois ir pegar o ônibus”, conta dona Nem. Foi ali na Praça XV que ela conheceu o pai de sua filha, Berna.

“O Valmir ficava sentado no banco da praça olhando. Eu ai para lá com uma amiga muito engraçada, a Silvia, e ela dizia “aquele ali tá gostando de ti”. Eu nem ligava e ele lá olhando, todo domingo. Um dia ele veio conversar comigo, perguntou onde eu morava, se podia me levar em casa. 

E a gente foi conversando, mas eu fiquei com tanta vergonha que puxava minha amiga para a gente ir embora – e fomos”, conta dona Nem, que na época tinha 17 ou 18 anos.

Todo domingo ela procurava por Valmir na praça, até que um dia se reencontraram. Começaram a conversar sempre e amiga de Dona Nem dizia que ela estava namorando.

“Um dia ele mesmo me falou “ah, você sabe que a gente está namorando, né? E foi assim. Mas você sabe como é marinheiro, né? Cada hora num porto”, conta dona Nem.  Enquanto namoravam, ela ficou grávida de Berna. Logo depois de dar à luz, a Marinha convocou Valmir para ir ao Rio de Janeiro, de onde ele partiu para uma longa viagem.

“Ele ficou um tempão viajando e quando voltou acabou se casando com outra moça. Soube que ele morreu com 35 anos de um ataque cardíaco” conta a aposentada, que criou sua filha sozinha, trabalhando como doméstica. 
“Ele foi legal comigo, não me arrependo de nada. Minha filha é maravilhosa, a gente se dá muito bem”. 

O cronista social Zury Machado acompanhou muitas moças da sociedade ao Footing. Lembra das mulheres elegantes que se vestiam como para um desfile de moda.

Mulheres Bonitas e Luxo

Primeiro cronista social da cidade, Zury Machado acompanhou de perto essa época. Ele começou no jornal “A Gazeta” e depois passou para “O Estado”, onde permaneceu por 50 anos, se aposentando em 2006. Conta que Florianópolis sempre teve mulheres bonitas, que estavam sempre em sua coluna. Muitas eram suas amigas.

Foi uma época maravilhosa. 

A gente ia na sessão das moças, no Cine Ritz, às 18h30. Era chiquérrimo ir na sessão das moças! Depois a gente ia passear na Praça 15 ou na Felipe Schmidt. As pessoas eram caprichosas, não tinha isso de vestido curto e decote”, lembra Zury, que participou do Footing com famílias como a Daux.

 “Acompanhei tanto Tereza Daux, que foi Miss Florianópolis, quanto com a filha dela, Luciana, que hoje é colunista do ND, e que conheço desde criança. Tereza era uma mulher lindíssima. Por onde ela passava só dava ela”, afirma.

Zury esteve envolvido na criação de muitos dos eventos sociais que passaram a fazer parte da história de Florianópolis, como o Baile Branco de Debutantes. Participar do evento era o sonho de muito menina da sociedade florianopolitana e motivo de muito orgulho para a família. 

O ex-colunista também elegia as 10 mulheres mais elegantes de Santa Catarina. Ele cita a beleza e elegância de Hercília Catharina da Luz, filha do então governador do Estado, Hercílio Luz. Lembra também de Norma e Vanda Mussi, mulheres muito chics. 

Zury estava tão envolvido com a moda que participou da criação do primeiro desfile da cidade com a estilista Olga Mafra. Mulher da alta sociedade, ela foi dona da primeira boutique de luxo de Florianópolis, o Bazar de Modas, que abriu em 1940. Nada mais justo, já que a cidade já praticava os desfiles de moda toda semana com o footing.

A Praca e a Rua

O passeio em volta da Praça XV e da Rua Felipe Schmidt era uma atividade prazerosa para o fim de tarde, principalmente aos finais de semana.


Momento de conhecer e se fazer conhecido, e até, quem sabe, de arranjar um namorado

Um comentário:

  1. Oi James! Me chamo Fabio e queria falar com você. Estou fazendo meu TCC sobre espaços públicos de Florianópolis / Ocupação Cultural e acredito que você pode me acrescentar MUITO. Não consegui lhe enviar um e-mail, mas o meu está aqui: fabiogh2201@gmail.com. Favor entrar em contato! Seria uma honra. Obrigado, Fabio.

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